quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Retorno


Lembranças são retratos em preto e branco
Em minh’alma ecoa a saudade
Frutificada pelos senhores da maldade
Seu pranto qu’eu não mereço tanto

Sinto falta da minha cidade
Já faz tempo, não sei quanto...
Do mesmo, sempre e até quando?
Muito, pouco, idade: meia-idade.

O tempo se esvai, len-ta-men-te...
Lanço-me ao mar, ligeiramente
Corro os riscos, busco as cinzas

Sorrateiro, encontro as pistas
Do caminho, da volta – fremente.
O pranto preto e branco, às vistas.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Antes do ensaio...

Olhava o copo no balcão. Sentia aquela tontura inicial e tinha certeza, como em todas as outras vezes que, de súbito, esse mal estar iria passar, muito embora isso nunca acontecesse. Olhava o copo no balcão como quem olha a mulher desejada, o oásis no deserto, o torcedor fanático na arquibancada vendo seu amado XV de Jaú ser campeão da Libertadores... Por que será que tinha esse fascínio por destilados? Concentrou-se no copo sobre o balcão. Pensou se alguém prestava atenção em sua presença. Sim. Havia dois rapazes bem mais moços, diretamente a sua frente como que hipnotizados com sua com seu flerte solitário. Esses moleques! – pensou. Tinha verdadeira ojeriza a adolescentes em bares... Só os odiava porque também já tinha tido as mesmas manias, o mesmo vazio existencial deliciosamente despreocupado e cheio de planos. Mas isso, agora, era uma história que ninguém queria ouvir.
Esqueceu-se dos meninos e concentrou-se em seu troféu. Uma tequila ouro em um copo de vidro tão espesso quanto as lentes dos óculos do velho atrás do balcão que, freneticamente, esfregava um trapo velho na parede, insistindo sem êxito, em extrair uma mancha que fora parar lá se sabe de que jeito. Tinha, o velho, um aspecto tão deformado e estranho que acentuava a cena grotesca de sua tarefa infame. Irritou-se por se deixar distrair com tão medonho ser, e voltou os olhos à sua ocupação inicial. Contemplar 80 mililitros de líquido castanho claro, composto alcoólico com 52 graus de teor depressivo do sistema nervoso central. Era chagada hora. Iria, enfim, degustar seu pedido.
Os moleques falavam agora em voz alta tentando demonstrar algum conhecimento sobre garotas, mas suas peles cobertas de pústulas naturais desta fase de solidão sexual acentuavam as olheiras que pareciam pertencer a personagens de certo clip do rei do pop.
Novamente encontrava-se divagando, com tantos pensamentos e esquecera-se de seu intuito em tão fétido botequim. Tinha esses transtornos de déficit de atenção e isso o deixava deveras irritado. Por quantas vezes deixara o leite ferver até derramar no fogão ainda que não tirasse os olhos do “canecão”? Forma, aliás, de chamar a leiteira que lhe rendera, fora do âmbito familiar, diversas gozações. Olhou no mostrador de horas na parede ao lado de um pôster da Portuguesa de 1973, cujo campeonato paulista havia sido dividido com o Santos. Quem torcia pra Portuguesa? Quem lembrava de um campeonato que acontecera há mais de 25 anos e que tinha tido dois vencedores?Olhou para cara do velho. Olhos pros rapazes. Ou eram meninos? O que estava fazendo ali? Deixou uma nota qualquer sobre o balcão imundo e saiu, mais uma vez, sem ser notado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

ESQUIZOFRENIZE-SE... Está na moda


As vozes da ficção estão entre nós? O mundo sofre uma esquizofrenia coletiva, e segue à deriva? Somos a imagem se semelhança da obra de... Munch? Na esperança de que? Nas engrenagens de quem? A voz do mundo sussurra uma história triste, violenta, atraente.. quem a ouve? Quem a ouve, então? Eles se engolem, se desesperam, atravessam... Usam suas drogas, seus venenos, seus remédios... Nós somos loucos? Sentados na calçada, as mãos sobre os ouvidos, coração disparado... Coração... Disparado... A fumaça nas narinas... As paredes da vizinha... De cima, do lado, do outro lado... Embaixo... Embaixo? Eles subsidiam, te enfiam: concreto, espaço, juros aos tubos... Embaixo? Esquizofrenia coletiva, seguimos à deriva, respirando fumaça suja, engolindo água podre, política estúpida... Alienação coletiva para toda a família, e grátis! Só compre nosso sabão, o domingão, brasileirão e a salvação... Alienação coletiva e grátis para todos os gostos. Mulher bonita não paga e a tv é quem leva. O império contra ataca! Esquizofrenize-se!!!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

Verão


VERÃO !!!

Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e muita gordura, pouco trabalho e muita micose.

Verão é picolé de Kisuco no palito reciclado,é milho cozido na água da torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca.

Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis.

Mas o principal ponto do verão é.. a praia! Ah,como é bela a praia.

Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção.Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a prancha pra abrir a cabeça dos banhistas.

O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e asfamílias estão chegando.Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis,raquete, frango, farofa, toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de férias.

Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e prontos pra enterrar a avó na areia.E as crianças? Ah, que gracinhas! Os bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por umaconchinha do mar, os adolescentes ouvindo seus MP5s enquanto dormem.

As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho afogado e caminhar vinte quilômetros praencontrar o outro pé do chinelo.Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, Como perfurar o poço pra fincar o cabo do guarda-sol.É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar em pé.

Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha que é entrar no mar!Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de cerveja no fundo.Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva.

Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita cheia de areia, vem aquela vontade de fritar nachapa.A gente abre a esteira velha, com o cheiro de velório de bode, bota o chapéu, os óculos escuros e puxa um ronco bacaninha.

Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor!!!!!Mas, claro, tudo tem seu lado bom.

E à noite o sol vai embora.Todo mundo volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma banho e deixa o sabonete cheio de areia pro próximo.O Shampoo acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa, desde creme de barbear até desinfetante de privada.

As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa da praia oferece.

Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costasqueimadas.

O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família.

Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo, pra que na manhã seguinte, faça aquele sol etodo mundo possa se encontrar no mesmo inferno tropical.

Qualquer semelhança com a vida real, é uma mera coincidência.

(Luis Fernando Veríssimo)

quarta-feira, 4 de março de 2009

O palhaço

O palhaço rouba a cena. A máscara cai. Toda limitação é superada, dada a certeza, que com clareza se esvai a sua postura, obs-cena. O palhaço está por dentro. Não respeita o padre, nem o delegado. Nem tarado, conjurado ou renegado. Às vezes, barbeado, bebe um pouco. Demais. O palhaço é só dor. Sua alegria recobre as ausências, as cicatrizes. Meretrizes em seu rosto a se rasgar na superfície da epiderme. O palhaço está por dentro. O palhaço está por fora. Já, ninguém o ouve. Suas falas são passadas, repassadas e ultrapassadas. Já ninguém o ouve. O palhaço tem saudade. De tudo. De nada. Obrigado a agradecer. Sorrir sem querer. Concordar sem se meter. Sugerir sem ser ouvido. Desmentido na certeza. Agredido na pobreza. De espírito, de conhecimento, de sanidade. Sua própria loucura, enlatada, engarrafada. Consumida dia-a-dia em doses sazonais. Café, almoço e janta. O mundo é um buraco. O palhaço está por dentro. O palhaço está por dentro. O palhaço da alegria, da tristeza sorrateira, do ser tratado como tal. O palhaço está por dentro. O palhaço somos nós.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

FASCISMO NUNCA MAIS!

E pra quem acha que o fascismo acabou, pra quem acha que o preconceito é uma estupidez à beira de ser vencida, pra quem acha que xenofobia é uma palavra que tem a ver com a Xena “a princesa guerreira”, pra quem acha que nunca mais veríamos os horrores da imbecilidade neonazista... Bom dia! Dormiu bem nesses últimos anos? De que planeta você veio? O país das maravilhas ficou só pra Alice, filho!
O debate sobre o possível ataque sofrido pela brasileira na Suiça retrata e traz novamente à tona a barbárie de grupos que não aceitam diferenças sob nenhuma condição. Além disso, premeditam atos de violência ao outro pelo simples fato de o outro, ser o outro.
O Brasil, em sua condição de laboratório da mistura humana, com seus índios, negros e europeus das mais diversas localidades, orientais, árabes e toda a gama de matizes epidérmicas que compõem nosso povo, não tem muitas dificuldades em compreender o teor deste ato medonho sofrido por uma mulher, brasileira, grávida.
Sofremos discriminações todos os dias, por sermos negros, pobres, periféricos, deficientes, homossexuais, mulheres, jovens demais, velhos demais e, mesmo assim, resistimos bravamente, lutamos com todo nosso fervor pra que nosso país seja mais justo e, quiçá, o mundo seja um lugar melhor.
Condene cada ato de preconceito, cada piada idiota contada nas rodas de amigos. Rompa sempre com os paradigmas! Pense! Não importa se você é branco, amarelo ou cor-de-rosa; não importa se você é coletor de produtos recicláveis, desempregado, patrão ou empregado; não importa, não importa, não importa!
Não há diferença de etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual que mereça ser levada em consideração na avaliação do outro.
Quando você aponta um dedo contra outra pessoa, três outros dedos seus são apontados para você!
Discriminação nunca mais!
Paupertas impulit audax

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Espera, espera!


Sei que espero o dia certo
Acerto o passo e continuo
Peço força e atribuo
Sem ter pressa passo perto

A injustiça do recurso
Beneficia o imprestável
Com a gana implacável
Sem pudor do seu abuso

Só não verá o que não quiser
E se deixar ludibriar
No tricô e bem-me-quer

O seu dia vai chegar
Não se perde a esperar
Mau espera irá perder

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Saúde!

Acordou de manhã, olhou pra janela. Parecia não fazer quinze minutos que havia deitado. Praguejou, virou-se com dificuldade e, por fim, terminou levantando-se do sofá sujo, empoeirado, esburacado. Não lembrava da noite anterior. Como chegara em casa? Ainda tinha nas mãos as chaves do cupê e, com muita dificuldade tentava organizar os flash’s que teimavam em vir e voltar de sua mente nebulosa.
O que fizera? Com quem estivera? Não conseguia organizar duas lembranças que aquela dor infernal vinha desmanchar qualquer possibilidade de um pensamento coerente e aceitável.
Lembrava ter ido até um dos bares habituais, pedir uma cerveja e... Ai! Lá vinha novamente aquela pontada nas têmporas. Sentia o trem do Circo Picadeiro’s, levando todos os elefantes adestrados do mundo, invadir-lhe a cabeça. Jurou nunca mais beber. Afinal, por que bebia? Por que não conseguia resistir à tentação de uma boa vodca? Por que se rendia àquela mágica boemia das companhias noturnas, dos bares cheios de MPB e solitários convictos?
Decidiu fazer algo. Não podia mais continuar levando aquela vida. Calçou o sapato do pé esquerdo, que havia conseguido retirar em seu sonambulismo embriagado da véspera, e dar a volta por cima. Não beberia mais. Estava certo de que aquela fora seu último porre. Parou de súbito. Lembrou, em mais um flash, que estivera com dois outros espectros da noite e, depois de algumas tequilas, fizeram planos para a erradicação da fome no Brasil, fundação de uma célula anarquista etc, etc,etc...
Lembrava também que os outros da mesa aplaudiram quando, em pé, cantou um trecho de uma antiga canção punk-rock. Todos do bar ovacionaram sua performance... Aiii! Caiu sentado no sofá... A dor fazia sua cabeça latejar de tal forma que pensava sofrer um derrame.
Convencido de que aquela fama passageira não passava dos quinze minutos que movem os Robert’s de plantão, chegou à conclusão de que parar de beber seria a melhor saída. Foi em direção do pequeno bar em sua estante. Não restaria nada. Seria o apocalipse etílico...
Entre muitas garrafas viu escondido, atrás de um 12 anos, um copo muito antigo. Estivera ali por muito tempo e ele não dera a menor atenção. Na verdade nem lembrava mais dele. Um copo de uísque com várias assinaturas, lembranças, mensagens. Sentiu de repente uma década e meia passar frente a seus olhos.
Lacrimejou. Lá vinha aquela dor. Cada vez mais forte. Percebeu que cada assinatura era uma história. Que cada marca no copo, era uma marca em sua vida e um saudosismo delicioso e inigualável inchou seu peito. Chorou!
Pegou o copo. Já não sentia dor. Aproveitou que ainda estava com as chaves. Foi comemorar. Cada um tem uma história. Aquela era a sua.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

SERA?


A bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagrede ser duas em uma, plenamente.
A bunda se divertepor conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhasa
volumam-se descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda
redunda.



Esse poema é do escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade, vale ressaltar que o mesmo faleceu em 1987 (já faz um tempo não), a data do poema eu já não sei.
Pois bem seria Drummond uma espécie de mago ou vidente que mesmo há tanto tempo previu a bundalização da cultura brasileira?
Sim o caos existe está na sua e na minha porta, batendo com força, nossas crianças e jovem saem das escolas mal sabendo ler e escrever, mas desde cedo aprendem a “dança da bundinha” “Creu” “Glamourosas” e tantas outras porcarias do gênero, e pior é vê-los sendo incentivados pelos pais que acham tudo uma gracinha.

Ah aha arrebita a rabeta... Ah aha e me diz meu bem o que mais que você têm... (disse o pensador)

As bundas estão aí em cadeia nacional em programas de TV, em revistas na Internet e tantos outros lugares, me pergunto elas invadirão o mundo? Coitada das Chinesas!
Recentemente Tivemos a tragédia de uma menina de 15 anos (Eloá), uma menina que começa a namorar aos doze, muitos disseram uma “criança”, mas já esta rodando por ai fotos com ela fazendo poses sensuais e adivinha... Arrebitando a famigerada bunda (Tragédia anunciada).

E eu lhe pergunto quantas crianças de 15 anos como essa você vê lendo um livro ou qualquer outra coisa que acrescente algo a sua vida? Quantas mais perderemos pela falta de cultura, educação, saúde, quantas mais precisaremos ver em bocas de fumo, se drogando, se prostituindo.

Quantas? Quantas? Quantas Mais?

Drummond não terminou a sua obra faltou falar do Silicone
Que Deus o Tenha, ele está melhor do que nós.